Cusco tem muito mais para oferecer do que a sua fama de ponto de passagem para Machu Picchu. Na cidade e nos seus arredores, há templos incas, ruínas monumentais, mercados, bairros coloniais e excursões de altitude que facilmente preenchem quatro ou cinco dias.
Mas há algo que quase nenhum guia tem em conta ao elaborar as suas listas: Cusco fica a 3 400 metros acima do nível do mar. Se chegares de avião vindo do nível do mar e, no primeiro dia, fores direto para a Rainbow Mountain, vais passar por maus bocados. A ordem em que fazes as coisas é tão importante quanto o que fazes.
É por isso que este guia está organizado por nível de dificuldade, do mais baixo ao mais elevado, e termina com o que quase ninguém explica: como continuar a viagem por terra até ao resto do sul do Peru.
Antes de começar: Cusco fica a 3 400 metros
Cusco situa-se a 3 400 metros de altitude, e os sintomas do mal de altitude costumam surgir entre 6 e 24 horas após a chegada. Isso significa que o teu primeiro dia na cidade não é o momento ideal para caminhadas longas nem para subir montanhas, mesmo que te sintas bem ao sair do avião.
A regra prática é simples: dedica o primeiro dia ao centro histórico, que é, na sua maioria, plano e fica ao nível da cidade. Deixa as ruínas nas alturas para o segundo dia e as excursões mais exigentes, como a Rainbow Mountain, para o terceiro dia ou mais tarde.
Se quiseres compreender bem como prevenir o mal de altitude durante toda a tua viagem pelo sul, consulta o nosso guia sobre o mal de altitude em Cusco e Puno.
O Boleto Turístico de Cusco: o que precisas de saber em primeiro lugar
O Bilhete Turístico de Cusco (BTC) é o passe oficial gerido pela COSITUC que dá acesso a 16 sítios arqueológicos e museus da região. O bilhete integral custa 130 soles para estrangeiros (cerca de 35 dólares) e é válido por 10 dias. Para os peruanos, custa 70 soles.
O facto que mais surpreende os viajantes é este: nesses locais Não se vendem bilhetes individuais. Sem o bilhete, simplesmente não se pode entrar em Sacsayhuamán nem nas ruínas do Vale Sagrado.
Se não pretender ver tudo, existem bilhetes parciais de 70 soles cada, divididos em três percursos:
- Circuito I (1 dia): Sacsayhuamán, Q’enqo, Puka Pukara e Tambomachay. É o clássico passeio turístico pelas quatro ruínas.
- Circuito II (2 dias): museus da cidade, o Centro Qosqo de Arte Nativa, além de Tipón e Pikillacta, no Vale do Sul.
- Circuito III (2 dias): Pisac, Ollantaytambo, Chinchero e Moray, no Vale Sagrado.
Três aspetos práticos que convém saber antes de o comprar:
- Precisas do teu passaporte para a tarifa de estrangeiro.
- O pagamento com cartão implica uma taxa adicional de 3.15%, e só aceitam Visa e Mastercard. O Yape e o Plin também cobram uma taxa adicional.
- O que NÃO inclui: Machu Picchu, o próprio templo de Qorikancha (15 soles à parte), a Catedral de Cusco, a lagoa Humantay, a Montanha Arco-íris e o Caminho Inca. Tudo isso é pago por vias separadas.
Faz as contas antes de comprar. Se vais fazer o city tour e o Vale Sagrado, o pacote completo de 130 soles já te compensa mais do que dois pacotes parciais de 70.

Dia 1: o centro histórico, sem esforço
Estes são os percursos ideais para o teu primeiro dia, quando o corpo ainda está a adaptar-se. Quase todos ficam a uma distância que se pode percorrer a pé no centro e não implicam subidas íngremes.
1. A Praça de Armas
O coração da cidade e o melhor ponto de partida. Está rodeada pela Catedral e pela igreja da Companhia de Jesus, com portais de arcos coloniais construídos sobre alicerces incas. Senta-te um pouco num banco e observa: é a melhor forma de te familiarizares com o ritmo de Cusco.
2. A Catedral de Cusco
Construída sobre o palácio do Inca Wiracocha, combina o estilo barroco espanhol com detalhes andinos. Repara na «Última Ceia», do pintor de Cusco Marcos Zapata, onde o prato principal é um porquinho-da-terra. A entrada faz-se pelo circuito religioso, e não pelo BTC.
3. Qorikancha, o Templo do Sol
Foi o templo mais importante do Império Inca, revestido de folhas de ouro, e os espanhóis construíram por cima o convento de Santo Domingo. O que resta da alvenaria inca apresenta uma precisão impressionante. Atenção: a entrada no templo é paga à parte (15 soles); o museu do sítio arqueológico faz parte do BTC.
4. O bairro de San Blas
Ruas íngremes e estreitas, oficinas de artesãos, cafés e uma praquinha com vista. É o bairro mais bonito da cidade. Suba devagar, porque a inclinação faz-se sentir à medida que se ganha altura.
5. A pedra dos 12 ângulos
Na rua Hatun Rumiyoc, a caminho de San Blas, na parede do antigo palácio do Inca Roca. É o exemplo mais famoso da arte da lapidação inca. Nessa mesma parede, é possível identificar formas de condor, puma e cobra, os três animais do mundo andino.
6. O mercado de São Pedro
A dez minutos da Praça de Armas. Sumos de fruta, queijos, pães, têxteis e bancas de comida onde se pode tomar o pequeno-almoço por alguns soles. É o verdadeiro mercado da cidade, não uma versão para turistas.
7. O Museu Inka
Boa coleção de cerâmica, têxteis, metais e múmias, numa mansão colonial. É o melhor local para compreender o contexto histórico antes de visitar as ruínas.
8. O espetáculo de dança do Centro Qosqo de Arte Nativa
Começa às 18h00 e está incluído no Bilhete Turístico, pelo que é gratuito se já o tiveres comprado. Danças e música tradicional da região.
9. Comer e provar o pisco
Cusco tem uma cena gastronómica de peso, desde picanterías locais até cozinha de autor. No primeiro dia, é aconselhável comer algo leve, pelo que um caldo ou uma sopa de quinoa são melhores opções do que um prato pesado.
Já adaptado: as ruínas sobre a cidade
Estes locais situam-se nas alturas que rodeiam Cusco, entre os 3 600 e os 3 800 metros. Implicam caminhadas e subidas, pelo que são mais adequados a partir do segundo dia. Os quatro primeiros fazem parte do Circuito I do Bilhete Turístico e podem ser visitados num meio dia.
10. Sacsayhuamán
O local mais impressionante nas proximidades da cidade. Muros de blocos ciclópicos, alguns com mais de 100 toneladas, assentes sem argamassa com uma precisão que continua a ser objeto de debate. Fica a cerca de 20 minutos a pé, subindo a colina, a partir da Praça de Armas, ou de táxi, se preferir poupar o esforço. Todos os dias 24 de junho, é palco do Inti Raymi.
11. Q’enqo
Um afloramento rochoso esculpido com canais, escadarias e um altar, provavelmente um local cerimonial ligado ao culto à água. Pequeno, mas curioso.
12. Puka Pukara
Conhecida como a “fortaleza vermelha” devido à cor da sua pedra ao pôr-do-sol. Serviu de posto de controlo e de descanso no caminho inca para o Vale Sagrado.
13. Tambomachay
Um conjunto de fontes e canais incas que continuam em funcionamento, associados ao culto à água. O sistema hidráulico é o que mais se destaca aqui.
14. O Cristo Branco e o miradouro de São Cristóvão
Dois pontos com vista panorâmica sobre os telhados de telha de Cusco. O Cristo Branco fica junto a Sacsayhuamán; San Cristóbal fica mais perto do centro. Ideal ao pôr-do-sol.

Excursões de um dia a partir de Cusco
Cusco serve de ponto de partida para várias excursões. Estas são as principais, ordenadas da que exige menos esforço físico à que exige mais.
15. O Vale Sagrado
A excursão mais recomendada, e que tem uma vantagem que poucos aproveitam: o vale fica a uma altitude inferior à de Cusco, a cerca de 2 800 metros, pelo que é mais suave para o corpo. Pisac, Ollantaytambo, Moray e as salinas de Maras num dia, ou melhor ainda, em dois. Abordamos este tema em profundidade no nosso guia do Vale Sagrado.
16. O Vale do Sul
O percurso menos visitado: Tipón, com a sua engenharia hidráulica, Pikillacta, da cultura Wari, e a igreja de Andahuaylillas, conhecida como a Capela Sixtina da América devido às suas pinturas. Tipón e Pikillacta fazem parte do Circuito II do bilhete.
17. A lagoa Humantay
Uma lagoa turquesa no sopé do Salkantay nevado, a cerca de 4 200 metros. A subida é curta, mas exigente devido à altitude. É necessário estar bem aclimatado e as partidas são de madrugada.
18. Montanha Arco-íris (Vinicunca)
A montanha colorida, a mais de 5 000 metros. É a excursão mais difícil de todas e aquela que mais pessoas fazem sem estarem preparadas. Não a marques antes do terceiro ou quarto dia em altitude. É pago à parte, não está incluído no Bilhete Turístico.
Machu Picchu: o essencial
Machu Picchu é a razão pela qual a maioria das pessoas vem a Cusco, por isso vale a pena esclarecer o essencial, embora não seja o foco deste guia. Não está incluído no Bilhete Turístico e os bilhetes de entrada são adquiridos por um canal separado, com vagas limitadas por horário e percurso.
O acesso habitual é de comboio, partindo de Ollantaytambo ou de Cusco até Aguas Calientes, e daí de autocarro ou a pé até à cidadela. É aconselhável reservar os bilhetes e o comboio com semanas de antecedência na época alta, pois esgotam rapidamente.
Uma dica prática: como Ollantaytambo é a estação principal, muitos viajantes aproveitam para combinar a visita ao Vale Sagrado com a a Machu Picchu na mesma etapa do itinerário, em vez de regressarem a Cusco entre uma visita e outra.
A melhor altura para visitar Cusco
A melhor altura para visitar Cusco é a estação seca, de maio a setembro, quando os dias são ensolarados, chove pouco e os percursos de trekking estão em melhores condições. É também a época alta, pelo que há mais gente e os preços sobem.
A época das chuvas vai de novembro a março, com o pico entre janeiro e fevereiro. Chove sobretudo à tarde, há menos turistas e os preços baixam, mas algumas caminhadas tornam-se mais difíceis. O Caminho Inca encerra durante todo o mês de fevereiro para manutenção.
Abril e outubro são os meses intermédios e costumam oferecer o melhor equilíbrio entre clima e afluência de pessoas. E se te interessam as festas, a 24 de junho celebra-se o Inti Raymi, a festa inca do solstício em Sacsayhuamán, altura em que a cidade fica repleta de gente.
Quantos dias precisas de passar em Cusco?
Para conhecer a cidade e o Vale Sagrado com calma, precisas de, pelo menos, três ou quatro dias. Se também fores a Machu Picchu, acrescenta mais dois dias; e se quiseres visitar a Montanha Arco-íris ou Humantay, acrescenta mais um dia por cada excursão.
Uma repartição realista para cinco dias seria a seguinte:
- Dia 1: centro histórico, sem esforço, para te adaptares.
- Dia 2: Circuito I, as quatro ruínas que se erguem sobre a cidade.
- Dia 3: O Vale Sagrado, que, além disso, fica a uma altitude mais baixa.
- Dia 4: Machu Picchu.
- Dia 5: uma excursão em altitude, ou o Vale do Sul, se preferires algo mais tranquilo.
É possível ficar menos de três dias, mas isso significa fazer tudo à pressa e com o corpo ainda a adaptar-se.

Sair de Cusco: seguir para sul, em direção a Puno ou Arequipa
Eis o que quase nenhum guia de Cusco explica. Quase todos terminam da mesma forma: visita-se Machu Picchu e apanha-se o avião de regresso a Lima. Mas Cusco é o ponto de partida natural para um circuito por terra rumo ao sul do Peru, e fazer isso poupa-lhe voos e permite-lhe conhecer o altiplano.
A partir de Cusco, há duas opções lógicas:
- Rumo a Puno e ao Lago Titicaca. Vais subindo em altitude (Puno fica a 3 810 metros), atravessando o desfiladeiro de La Raya, a 4 335 metros. Se já estás aclimatado em Cusco há alguns dias, este é o momento ideal para o fazeres.
- Rumo a Arequipa. Desce-se em altitude (Arequipa fica a 2 335 metros), o que é um alívio depois de dias nas alturas. A partir daí, chega-se ao Desfiladeiro do Colca.
A decisão depende do teu itinerário geral. Se vais visitar ambos, a ordem mais confortável para o corpo é Cusco, Puno e, depois, Arequipa, porque acabas por descer em vez de subir no final.
Os autocarros interprovinciais diretos percorrem estes trajetos com serviço de terminal a terminal, o que evita as mudanças de autocarro e o desgaste dos autocarros turísticos com múltiplas paragens. O rota direta de Cusco para Arequipa liga a antiga capital inca à Cidade Branca, e também existe uma ligação direta para Puno, caso prefira visitar primeiro o Titicaca.
Perguntas frequentes
Vale a pena visitar Cusco para além de Machu Picchu?
Sim. Entre o centro histórico, as quatro ruínas do Circuito I, o Vale Sagrado e o Vale do Sul, há o que ver para quatro ou cinco dias, sem sequer contar com Machu Picchu. Cusco é um destino por si só, não apenas uma escala.
Quantos dias preciso passar em Cusco?
Três ou quatro para a cidade e o Vale Sagrado, cinco ou seis se incluíres Machu Picchu, e mais um por cada excursão a altitudes elevadas, como a Montanha Arco-íris ou Humantay.
O que inclui o Bilhete Turístico de Cusco?
O passe integral custa 130 soles para estrangeiros, tem uma validade de 10 dias e dá acesso a 16 locais, entre os quais Sacsayhuamán, as ruínas do Vale Sagrado, os museus da cidade e o espetáculo de danças. Não inclui Machu Picchu, o templo de Qorikancha, a Catedral, a Montanha Arco-íris nem Humantay.
Qual é a melhor altura para visitar Cusco?
De maio a setembro, devido ao clima seco, embora haja mais gente e os preços sejam mais elevados. Abril e outubro oferecem o melhor equilíbrio. De novembro a março chove, sobretudo à tarde.
O que fazer no primeiro dia em Cusco, devido à altitude?
Fica na zona histórica, que é praticamente toda plana: Praça de Armas, Catedral, Qorikancha, mercado de São Pedro e alguns museus. Deixa Sacsayhuamán para o segundo dia e as excursões a altitudes mais elevadas para o terceiro dia ou mais tarde.
Como sair de Cusco em direção a Puno ou Arequipa?
De autocarro interprovincial direto, que é a opção com maior frequência e serviço de terminal a terminal. A caminho de Puno, sobe-se em altitude ao atravessar La Raya; a caminho de Arequipa, desce-se, o que costuma ser mais agradável após vários dias na serra.
Cusco recompensa quem não tem pressa. Organiza os teus planos de acordo com a forma como o teu corpo se vai adaptando e, quando estiveres pronto para continuar, o sul do Peru leva-te até ao Titicaca e ao Colca pela estrada, ao teu próprio ritmo.